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Viver é aceitar que cada minuto é um milagre que não poderá ser repetido..!

Ela era poesia!!

 
Ela guardava as palavras debaixo da almofada.
Na segunda gaveta da cómoda de cerejeira.
Não as deixava fugir das páginas dos livros.
Saboreava- as ao pequeno almoço com o pão com manteiga.
Roubava-as às pessoas que passavam por ela e não sentia remorsos.
Escondia-as no frigorífico para que se mantivessem frescas. Como alfaces.
Semeava-as em vasos de barro e esperava, pacientemente, que florescessem.
Colhia-as quando deambulava pela cidade grande.
Nas catedrais. Nos becos dos bairros de ruelas estreitas. Nas frestas das fachadas dos prédios pombalinos.
Até nos elevadores que a levavam aos miradouros para descansar o olhar. Nos museus e nos monumentos de pedra bordados.
Dela saíam palavras pelo decote. Dos sacos das compras. Do cabelo pintado da cor das papoilas. Das gargalhadas.
Ele apareceu na vida dela e foi amor à terceira vista.
Ele prometeu-lhe um mundo. O seu.
Fez-lhe uma serenata.
Mas ela só lhe disse, tristemente, aquele amor era impossível.
Ela era poesia. Ele não sabia ler.
 
(Mena Geraldes)

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