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TERAPIA DAS PALAVRAS...

Viver é aceitar que cada minuto é um milagre que não poderá ser repetido..!

TERAPIA DAS PALAVRAS...

Viver é aceitar que cada minuto é um milagre que não poderá ser repetido..!

O ESPELHO

Calimero, 17.05.12

Há dias em que o detesto. Hoje é um desses dias… ou talvez não… Fico sempre à espera de que ele me mostre a menina e a mulher que um dia fui. Mas, incapaz de me mentir, ele mostra-me quem hoje sou realmente. Depois, olho com mais atenção e reparo que por detrás de uma ruga que ontem não estava cá e de um fio branco no cabelo que se esquivou à tinta do cabeleireiro, está uma mulher de verdade. Alegro-me, ao reconhecer-me no brilho do olhar, que continua o mesmo, e no sorriso ainda cativante que ofereço de bom grado às pessoas de quem gosto e a quem gosta de mim. Depois de uma análise mais detalhada, agrada-me o que vejo, se bem que a frescura dos vinte anos tenha desaparecido, tal como a graciosidade dos trinta e o esplendor dos quarenta, para dar lugar à maturidade e elegância dos cinquenta. Ajeito o cabelo para trás da orelha, retoco com o dedo o baton discreto que sempre uso e corrijo a base, porque me parece ter exagerado. Sorrio. Não está mal, não senhor… Ainda é cedo para sair. Ponho perfume, escolho o relógio que melhor combina com a roupa e peço a Deus que esteja sol, porque hoje, eu mereço e preciso dele, para me tirar desta penumbra que escondo sempre em mim. Há dias em que não sei se sou triste ou se estou feliz. Mas hoje, diante do espelho, jurei a mim mesma que ia estar feliz. Hoje, basta-me estar feliz. Volto ao espelho… Preciso de um último conselho sincero, antes de sair. Li algures que vemos melhor a nossa alma e a nossa essência, se fecharmos os olhos diante de um espelho. Pareceu-me na altura disparatada a ideia mas, neste momento, parece-me de tal maneira acertada, que não vacilo, quando penso em ficar em silêncio e de olhos fechados perante aquele meu companheiro que nunca me mente. Que não se coíbe de me dizer quando acordo com setenta anos, nem quando acordo com vinte, que não se apieda de mim quando me recuso a olhá-lo, porque não gosto da sua franqueza. E assim, de olhos fechados perante ele, aguardo que me mostre se valeu a pena ter percorrido o caminho que me trouxe até aqui. Se valeu a pena ter errado tantas vezes… Sorrio de olhos fechados, porque me apercebo de que, apesar de muitos erros, também consigo vislumbrar muitas decisões acertadas, muito caminho bem percorrido e, nesse momento, alcanço finalmente alguma paz. Fecho os olhos com um pouco mais de força, para poder recuar um pouco mais no tempo. Tenho saudades do que vejo, saudades do que deixei de viver, saudades de pequenos nadas que me fazem tanta falta, saudades de mim, sendo outra. Chegam-me lembranças de tempos muito felizes, perfumados de primaveras e, quando dou por isso, rola-me pela face uma lágrima que não é de tristeza, mas de saudade. Gosto de ter saudades, tal como gosto de fado, de flores do mato e do pôr-do-sol na praia, quando corre uma brisa morna. Gosto de ter saudades, tal como gosto de quem gosta de mim. Abro finalmente os olhos, depois deste passeio pela Rua da Saudade e vejo à minha frente uma mulher que faz amanhã cinquenta e um anos, sem complexos da idade e com uma vontade imensa de SER feliz. Retoco a maquilhagem que a lágrima esborratou, acerto o relógio, que ainda se rege pelo horário de inverno e saio para esta rua que se chama Realidade e que constantemente se cruza com a Rua da Saudade.

 

Ana Fonseca da Luz

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