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TERAPIA DAS PALAVRAS...

Viver é aceitar que cada minuto é um milagre que não poderá ser repetido..!

TERAPIA DAS PALAVRAS...

Viver é aceitar que cada minuto é um milagre que não poderá ser repetido..!

Vem para casa..

Calimero, 18.12.19

 

Esta tarde quando chegares estarei à tua espera. Quero-te oferecer o calor, o afeto e o meu sorriso. Ter o jantar na mesa e Abrunhosa a cantar. Se for preciso ainda te massajo os pés para te fazer descansar do aperto dos sapatos.

Aguardarei por ti enquanto tomas banho e te renovas. Serenamente ficarei a admirar as curvas do teu corpo e as voltas do teu rosto enquanto me contas como foi o teu dia. Tenho esta mania de ficar vidrado na tua imagem.

Escutarei com interesse e compreensão todas as tuas queixas. Quero saber como se faz para te devolver a paz que a cidade te roubou. Arrancar de ti as coisas más e deixar-te numa dormência de bem-estar.

Vou fechar as janelas e deixar chover na rua, fazer-te sentir mulher e mostrar-te que é tua a minha atenção.
Cuidar-te. Amar-te.

Esquecer o telefone e o telejornal. Se há coisa que me consome é quando um casal não partilha a hora da refeição.
Preciso de me concentrar e ouvir a tua voz para desatar os nós que trazes do trabalho.
As amarguras, as coisas que te arreliam.
As complicações.
Quero-te reparar.

Daqui a pouco
quando estiveres
a bater à porta para entrar
eu vou estar
de braços abertos
louco para te receber.
Para te cuidar
e fazer ver
o amor que em mim mora
e que por mais que possa chover,
chuva forte é só lá fora.

Tristão de Andrade

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Memorias de um amor que nunca foi ..

Calimero, 14.12.19

 

Bebedor de luas me embriago,
negro no fundo negro das vielas
e me dissolvo, sem passo, no abismo
onde o tempo naufraga sem lembrança.
.
Um rio sustenta a tua boca,
duas margens de água e carne,
duas feridas de um desejo que do corpo se perdeu.
.
Não fosse a tua boca
água nua esperando um barco
e morreria eu de amar,
e morrerias tu sem mar.
.
Mas do sempre que fomos
o que restou?
Silêncio aos pedaços,
palavras que em lágrima se soletram.
.
E são de aves
as folhas que tombam
e não há chão nem vento onde se deitem.
.
Melhor dormir se o tempo se faz sem ti
e guardar-te em sonho
até tu mesmo seres noite.
.
Desperto: todas as pedras secaram,
saudosas de carícia tua.
Todas as luas ficaram por nascer
sedentas dos olhos que são teus.
.
Depois volto a beber
o luminoso veneno em que escureço
e o dia regressa,
mendigo e magro,
buscando em mim
lembrança de um amor
que de tanto ser
não saberá nunca ter lembrança.

Mia Couto

 

Carta de Amor(Esboço)

Calimero, 12.12.19

Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer.

Muitas vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer.

É que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo.

Então, é natural que voltes atrás e me peças: «Vem comigo!»,

e devo dizer-te que muitas vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas.

No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

Nuno Júdice

 

 

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Noite quase perfeita..

Calimero, 03.12.19

Lareira

Musica

E claro ... poesia ❤

Sophia de Mello Breyner Andresen,
A pura face

Como encontrar-te depois de ter perdido
Uma por uma as tardes que encontrei
O ser de todo o ser de quem nem sei
Se podes ser ao menos pressentido?
.
Não te busquei no reino prometido
Da terra nem na paixão com que eu a amei
E porque não és tempo não te dei
Meu desejo pelas horas consumido
.
Apenas imagino que me espera
No infinito silêncio a pura face
Pr′além de vida morte ou Primavera
E que a verei de frente e sem disfarce

..

Eu.eu mesmo..

Calimero, 01.12.19

 

Eu, eu mesmo...
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar. —
Eu...
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...
Eu...
Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei...
Eu...
Tive um passado? Sem dúvida...
Tenho um presente? Sem dúvida...
Terei um futuro? Sem dúvida...
A vida que pare de aqui a pouco...
Mas eu, eu...
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu...
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(Álvaro de Campos)

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