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Viver é aceitar que cada minuto é um milagre que não poderá ser repetido..!

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes.

Gastámos tudo menos o silêncio.

Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mãos à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar. Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.

E eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos, era no tempo em que o teu corpo era um aquário, era no tempo em que os meus olhos eram realmente peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos. É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros. Já gastámos as palavras.

 Quando agora digo: meu amor, já se não passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar. Dentro de ti não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas. Adeus.

 

 

 

Eugénio de Andrade, in “Poesia e Prosa”

 

 

E por vezes....

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos

 

E por vezes encontramos de nós em

poucos meses o que a noite nos fez

em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos....

 

David Mourao Ferreira

 

Obsidiana

 
Deixa ficar os óculos! Envolvem-te num ar misterioso, diáfano e indelevelmente sensual. Essa envolvência mantém-te num velo dourado; qual argonauta, imprimindo-te uma suave áurea, que na procura do sorriso em teus lábios, desvenda tenuemente a rebeldia do teu espírito, que, definitivamente, orla os teus cabelos, esses sim!... espelhos de alma, que não te permitem ocultar esse teu segredo.
Não prenúncio acerca da tua beleza pois essa escondes no teu âmago, na tua essência e ambas reflectem-se na obsidiana, que é a tua alma... conheço bem como viaja o coração nesse teu olhar perdido no escuro da reflexão... no turbilhão efervescente que é uma alma livre, presa a um corpo, que sonha... que sonha muito; voa e voa…

tÓ mAnÉ